14 de jan. de 2010

O espectador. (texto de um amigo)

Nada melhor do que um churrasco com os colegas de trabalho após um desgastante dia de trabalho. Muita cerveja gelada, carne, som de qualidade, risadas, descontração e animação, a fim de que esqueçamos o mortífero e necessário hábito do trabalho pelo qual todos nós temos que nos submeter, com uma ressalva: atualmente eu não estou bebendo, por opção. Talvez seja uma opção pela qual eu me arrependa profundamente no futuro. Enfim...

E assim, todas aquelas pessoas que trabalham no mesmo escritório organizaram um churrasco para confraternizar, o qual foi realizado no salão de festas de um dos colegas. No início, se via que as pessoas estavam comportadas, com a maquiagem fresca em seus rostos, se comportando tal qual o fazem quando estão em ambiente profissional. Mas bastam uns goles de cerveja bem gelada e uma caipirinha bem adocicada para que as máscaras comecem a cair. Afinal, o álcool é um lubrificante social.

E como o assunto sexo não podia faltar numa roda de conversa, uma mulher, que se mostra toda comportada no seu habitat de trabalho, menciona o seguinte aos quatro cantos do salão “eu adoro fazer um sexo animal com o meu marido”. Os abobados adoraram essa frase, e ela, então, encorajada por isso, emendou: “amo fazer sexo matinal, mas me nego trepar quando meu marido está com tesão de xixi. Ele primeiro tem que mijar para depois transar comigo, e o pau dele tem que estar bem limpinho, sem qualquer cheiro ou gosto de urina”.

Para cutucá-la, eu perguntei: “e se por ventura ele acordar de pau duro porque estava sonhando contigo? Isso não seria um tesão de xixi, não é?”. Não obtive resposta. E o pior: a fanfarrona ganhou adeptas. A pauta da roda tornou-se o sexo sujo e vazio. Confesso que me senti mal. Saí dali e tomei um copo de água, aproveitando para respirar um pouco.

Quando voltei ao salão estava tocando músicas bagaceiras. Funk, para ser mais preciso. E obviamente avistei aquelas mulheres pobres dançando de maneira insinuante com o único intuito de provocar os homens. A essa altura do campeonato, noventa por cento das pessoas já estavam contaminadas com a podridão emanada inicialmente por uma única maçã podre, e todos colocaram-se rendidos, dançando ao ritmo da música “beijo na boca é coisa do passado, a moda agora é namorar pelado”.

Quando eu pensei que o pior já tinha passado, vieram duas mulheres ao meu encontro. Uma era aquela maçã podre que começou a merda toda. A outra, uma coitada reprimida que bebeu um pouquinho, achou engraçado o que a primeira fez, e resolveu segui-la.

Ambas começaram a me elogiar e a se insinuar. Muitos toques, palavras no ouvido e olho no olho. Num determinado momento, ambas falaram que queriam sair comigo naquele momento, direto para um local reservado, para nos conhecermos melhor. Para não ser grosso, me esquivei, falando que elas estavam bêbadas e só estavam falando aquilo tudo da boca para fora. Mas, no fundo, eu senti que elas estavam querendo mesmo era trepar a noite inteira. Senti no rosto delas, no jeito delas falarem e de me tocarem, mesmo elas sendo casadas.

Quanto mas eu neguei, mais elas queriam. Não tinha mais forças para suportar aquilo tudo. Era muita coisa para uma noite só. Saí do salão e sentei num banco que ficava localizado perto da pracinha do condomínio. Fiquei lá por alguns minutos, pensativo, quando uma das minhas colegas de trabalho sentou-se ao meu lado. Uma pessoa que eu nunca dei a mínima, pois sempre achei ela muito comum, igual a todas estas que se encontra em qualquer lugar. Uma pessoa, até então, sem qualquer encanto.

Então, ela perguntou o motivo de eu estar ali parado e eu, prontamente, expliquei, com enorme tristeza. Eu me abri para ela. E ela, ao me escutar, respirou fundo, e também se abriu para mim. Ela retirou o véu que estava sobre a sua face este tempo todo, e pude, então, enxergar um pouco da sua essência. Uma linda mulher, com lindas intenções. Com um enorme potencial. No cotidiano, age de um jeito comum porque os homens assim a tratam e não dão o valor que lhe é devido. Vi isso. Ela quer amar. E ser amada. Não quer mais ser um objeto sexual. Não quer mais ser comida e comer os outros.

E então, a minha noite que tinha tudo para ser uma catástrofe, teve um momento bom, com sinceridade. Encontrei um brilho atrás da neblina cinzenta.

Guerreiro Intrépido da Mão de Gelo.

11 de jan. de 2010

Retratos do cotidiano



"Estou procurando pousadas para passar o carnaval na Ferrugem". Disse ela na conversa de msn. Mas Ferrugem no carnaval? Vai ser igual ao verão no carandiru, só que com latinhas de cervejas espalhadas por tudo; e polar ainda, para caracterizar o mau gosto. Eu disse. Mas porque afinal tu pensou em ir pra Ferrugem? "Ah é que temos um grupo de mulheres solteiras".

Mas tu sabe né? Basta ser mulher para cair um homem do lado. "depende do tipo de homem que se está esperando" - disse ao ascender a esperança. Mas na Ferrugem? É o mesmo tipo de homem que tu encontra em qualquer estádio, escritório, balada, tele-entrega ou audi A3. São tantos quanto as baratas ao sair do bueiro. Ela pensa.

Subitamente outra conversa me aparece na tela. É um amigo me dizendo "olha que vídeo mais engraçado. hahahahahahaha". Abro o link e o que vejo é um combatente, destes árabes loucos da tv, lançando mísseis de morteiro em sua guerra de liberdade. Lança um, dois e o morteiro emperra no terceiro espalhando os átomos do guerrilheiro pela terra santa. Eu não achei engraçado. Digo e fecho a janela.

Me brilha a tela de novo. É minha amiga e a continuação da conversa. "Ah mas ninguém vai pra Ferrugem encontrar o príncipe encantado. Só vai dar boas risadas, ficar bêbada e transar com mais um babaca". Que horror. Diz o amigo das risadas do morteiro assassino, no ctrl + c, ctrl + v. Eu mantenho a conversa: Mas olha, não precisa procurar príncipe mas é bom procurar encanto.

Ela concorda e diz "tá, então me deixa informada sobre a tua viagem pro Uruguai, eu sou mesmo parceira". Outra janela se abre, é um amigo dentista, que pedi uma ajuda numa corrosão de canal. "Conseguiu falar com ele?" Diz este meu amigo e ele, é o dentista especialista no canal. Não cara, mas ligo amanhã, obrigado. E como estamos?

"Ressaca de ontem fui no jimba". E o que achou? "Tava muito bom, altas gatas peguei duas. Uma repetida e uma ex-colega mais ou menos. Mas peguei contatos com duas outras maravilhosas". Pô, e porque duas? "Ah tava afim de extravasar". Sei como é... e fecho a janela.

E eu sei mesmo como é. Uma corrosão de canal está lá sem a gente perceber, até que rasga a alma. Mas ela cresce na desconexão do cuidado. Tudo é separação, o nosso complexo anímico livre vira um confronto entre fronteiras. Agora estás em guerra e te garanto, vai perder. É impossível afetar-se com o infinito, quando não somos inteiros.

Falam o que não sentem e pensam o que não fazem, na ordem caótica qualquer do silogismo de Gandhi. Buscam nos outros o reconhecimento de si mesmos. Sendo ilha, não pode-se deixar afetar por terra de continente, pois assim o fazendo, perderia todo enfeite aceito de sua tendenciosa composição. Teu esforço é todo em busca de reconhecimento, para enganar o estômago.

É questão de opinião, tu vai dizer. Mas toda ilha precisa da opinião do outro. Você precisa de tudo no outro, afinal sem alguém para te achar o que tu demonstra, o que te sobraria se não o nada? Mas tu é mesmo o menininho dos olhos da ilha, não é? Enquanto alguém estiver lá para ser capturado, tua mentira do nada, passa mais um dia de vazio. Deve ser mesmo emocionante ser rei de ilha deserta.

E o que tu não és te escapa, como te escapa a vida. Por isto te perdes, mas da morte não escapas!

E ainda vão desenvolvendo um certo cinismo que de nada tem a ver com a doutrina cínica do cão original. Um cinismo que faria Diógenes, o matador de monstros, militar no conteporâneo. Mas este cinismo grosseiro é também um mecanismo de conserva. Como se ao banalizar o ato, te tornasse automaticamente descomprometido do mesmo. Pão e circo bastam para ilhar um homem.

E ao verme nem mesmo esforço é preciso para cavocar o abismo em procura do podre, basta passar pelo cotidiano. Mas o Verme sabe. Apenas o nada é digno da morte e só a morte pode ser constada como sorte de amor. É claro que todos têm um bom coração no abismo, mas não se engane, pois todo dia é dia do juízo. E o podre sabemos bem como é: Corrosivo. fraco. e oco.

9 de jan. de 2010

O amor não se engana.

Eu tenho certeza! E muitos de vocês devem mesmo ler e dizer: quanta arrogância, que prepotência. Um ego potente é diferente de um ego inflado. Você não muda nada com isto e nem mesmo você mantem-se você; com isto. Pra que tal esforço? Podes acreditar, eu vou rir quando quiser e chorar e dançar aonde for.

Eu estou na mesma festa. Tenho meus defeitos de cultura, mas os sei bem, não vou me permitir perde-los em marcas. Você fica pasmo na arrogância que posso chegar? Eu já penso que este patamar, é o básico de mim. Me lembro de você atriz menina, quando pus as mãos em ti. Eu te disse ao te ver gostar demais, você está mesmo mal acostumada; e para baixo!

E hoje eu olhei para ti, Silvia. Quatro encontros foi o que tivemos no passado? Eu lembro bem o genuíno encontro; brincadeiras de cabeças dançando de siga o mestre cada um no seu lado do salão. E hoje conversamos sobre o estranho fim. Eu nem o vi, mas ele passou com o tom do tempo. O amor não se engana.

Mas nossa conversa foi mesmo curta, minha fala e meu coração permanece em seu merecido descanso, pois trabalhou demais. Eu não te tenho com amor Silvia. Então quando te abandonei e vi tu beijar aquele homem, eu sorri como o cão. Estive mesmo certo em te despedir. De alguma forma para mim, a vida tem sempre razão.

Fechei meus olhos e nem ao menos te dei as costas. Dei a frente para os que estavam presentes. Ah mas eu te vi! Em descompasso com o rapaz que trocaste teus fluídos. Ele te serviu para o que? Sei que tu sabe, se te serviu para algo, não te serviu para nada. Pois este amor que eu vivo, não tem propósito e nem fim. Ele apenas rasga a pele e come pedaço por pedaço desde os dedos até os cabelos.

5 de jan. de 2010

Eu durmo no abismo de uma mulher

Para construir as sombras do amor, é preciso se iludir. Meu corpo, cada vez mais magro, me aparenta o mais forte dos homens. Me tente! Me provoque ou desafie, eu te cedo todos os meus domesticados demônios. Mas se te mostro minha face no indiferente afetamento da humildade tu perderá o jogo sozinho.

Acho bonito pensar que os corpos quando abraçados em forma fetal no sofá batem o mesmo ritmo cardíaco. Fomos rasgados. Mas e daí? Quando verei tu parar de chorar e me abraçar de orgãos unidos? Eu sinto tua falta na ferida viva do meu coração. Lembro bem dos rituais pagãos ao descobrir o corpo: cavaleiros mascarados em círculo e nós dois trepando no meio do altar.

Mas aquilo era nosso intento de ser. Então por favor, não me tenha fetiche ao ver o mundo transar. Nós estamos em núpcias o tempo inteiro. Cada nossa respiração bulina o vento e a planta numa orgia nupcial de amor. Eu, que me sinto agora adoecido de amor, não posso transformar o tempo, posto que o tempo me abandona. Me perdoe tempo, pois sou mesmo eu que morro neste instante.

Faça valer homem cansado! Faça valer seu merda! Sou homem e quero que tu saiba mais do que sou terra: Cala tua boca diante desta mulher. Não vês que só de te permitir penetrar a alma de seu útero já deves ter a existência agradecida? Nosso corpo bruto feito em mil traços é feito para permanecer. Enquanto a mulher flutua, dobra e tece a teia do mundo.

Mesmo minha espada não te sangraria mais do que o abismo desta mulher. Mas seja grato pelo sangue desta ferida, porque de minha espada tu terá mesmo só a cabeça cortada. Renuncia tua masculinidade viril e deixa que teu sentimento de gratidão submeta-se à mulher. Não será senhor dela, sem antes aprender a ser seu criado. Ela quer teu gozo assim como nós queremos, se tivermos sorte, estar ao lado dela..

..em nossa morte.

25 de dez. de 2009

Adão, Eva e os filhos do incesto.

Hoje contarei a história do nascimento de Jesus.

- Disse o verme enquanto, de costume, mastigava os restos de sofrimento e desamparo da ceia de natal.

Mas antes é preciso falar sobre outro grande homem, o profeta Zoroastro. Na história da humanidade, muito antes de Jesus, nascia um bebê sorrindo ao arrastar-se das paredes do ventre. Nesta época, os deuses eram pequenos como reis, orgulhosos e avarentos naquilo que lhes fechada o divino; e ao homem, que neles sustentavam suas feridas de existência, lhes cabia o temor.

Foi por este temor que eles renegaram Zoroastro. Um bebê não pode nascer sorrindo ao ver mundo tão escuro, diziam eles. O fato de Zoroastro nascer sorrindo, atentava desmantelar todo mecanismo patológico que sustentava os homens e os deuses como pertencentes à existência. Os deuses estavam furiosos. Este bebê ameaçava rasgar a corda do tempo e se assim o fizesse, tornar-se-ia imortal o que acabaria por suicidar todos os deuses e empurrar os homens abismo abaixo.

Assim iniciava Zoroastro sua caminhada aos astros. E desde o inicio pôs-se com coragem a enfrentar os deuses e tudo o que existe. Zoroastro, o matador de deuses, como todo homem que excedeu-se, enfrentou seus medos no abismo. E um dia, assim como Zoroastro passou por Nietzche em seus indagamentos, Vohu Mano passou por Zoroastro e os dias tornaram-se todos.

Vohu Mano é para Zoroastro a representação da afirmação incondicional da existência. Vohu Mano, a boa mente, é o batismo de sabedoria em Zoroastro, que em sua batalha com os deuses, erguia-se imaculado. Os imortais estavam mortos e Zoroastro detinha o selo da imortalidade finita em seu sorriso.

Zoroastro agora era homem, parte de toda criação e também símile do imperecível. Sua boa mente o levou a compartilhar sua mensagem com seus irmãos de espécie. Mas os homens sempre foram medrosos e desconfiados e não aceitaram a visão ampla de Zoroastro. Estavam hermeticamente acomodados em suas representações existenciais e não podiam tolerar ruptura.

Acontece que estes deuses eram nada pois fragmento de delírio do homem e sua onivontade dar-se-ia apenas no campo limitado de seus territórios. E quando o cavalo do governante dos homens adoecera e estava prestes a morrer, todos os deuses foram convocados para curá-lo mas nenhum o pode fazê-lo.

Sem mais opções o governante foi à procura de Zoroastro, que se prontificou de bom grado a olhar por seu cavalo. Todos ficaram pasmos ao ver que o cavalo havia sido curado pelos cuidados dele e o exaltaram como operador de milagre. Zoroastro, porém, lhes contou que nada tinha feito de milagroso e que só usara uma medicina comum em sua terra natal.

Ficaram encantados com a simplicidade e honestidade de Zoroastro e se prontificaram a escutar de novo a sua mensagem. Pudera Zoroastro ter se adquirido de poderes e mantos místicos ele manteve-se fiel ao verso criador, sua boa mente, e assim pode espalhar sua mensagem aos novos olhares dos homens. Esta é a história de Zoroastro, o matador de deuses, o observador dos astros.

A partir deste ponto, muitos outros começaram a compartilhar a existência com esta boa consciência de Zoroastro e estes eram chamados de Zoroastras. O Zoroatrismo é isto, literalmente, isto. Não se baseia em milagres, ou anjos, ou magia. É apenas uma boa mente apronfundada no abismo de pertencer. Seguindo a história, adiante na história da humanidade, veremos três importantes Zoroastras que foram o marco do nascimento de Jesus.

Seus nomes eram Baltazar, Melquior e Gaspar. Mais conhecidos como os três reis magos. Vivos em uma época retratada pelo esvaziamento dos deuses e o empobrecimento dos homens. Os homens açoitavam-se à miséria de si próprios. Em privilégio à vontade do controle dos corpos e das massas, o controle de si mesmos e de sua vontade era cada vez mais obscuro.

Baltazar, Melquior e Gaspar eram sábios de bastante prestigio e poder. Seres abstratos com ferramentas reais. Entendiam tanto de sua espiritualidade pertencente como das maquinações da sociedade. De boa vontade os três elaboraram um plano para libertar o povo de sua angústia e guiá-lo para a felicidade.

Eles iriam atrás de um salvador, um messias que pudesse guiar o povo à libertação de sua desgraça. Este messias deveria nascer com as mesmas condições de pobreza do povo e ter a coragem de exceder-se às suas misérias. Assim partiram os três Zoroastras, atrás do rastro da estrela em direção a Belém.

Em Belém todos notaram a presença dos Três. Suas roupas nobres, suas posturas eretas, suas faces bem cuidadas eram o oposto de todos os pobres da pequena vila. Aquele povo carecia de entusiasmo, seus olhos eram cansados, suas vestimentas sujas e seu caminhar pesado. Seguir aqueles homens santos era o mais costumeiro que poderiam fazer aqueles vileiros de vida pacata.

E como eles ficaram surpresos ao verem os três reis pararem por uma moça imunda no bairro mais imundo e prenhe de barriga.

- De quem é este filho? Os três perguntaram.

- Eu não sei. Respondeu ela de olhar baixo.

De fato, esta era Maria, como tantas outras Marias de Belém, dava-se a tantos homens que era incapaz de saber qual deles seria o pai da criança. Puta! Vagabunda! Começaram a gritar os vileiros em volta de Maria, mas logo foram impedidos pelos três que se pronunciaram:

- Deveras este filho não é filho de nenhum homem, pois este filho não tem pai senão o pai de todos, deus. Assim vos dizeis os reis sacerdotes Baltazar, Melquior e Gaspar.

Ah! Mas é claro. – esbraveja o Verme. O que Maria, desgraçada como vivia, iria acreditar: ter nela o filho de deus, reforçada pelo nome e honra de três homens poderosos ou ter nela um filho da puta? E assim também aceitaram todos os vileiros, com esperança de ter ali a salvação de sua miséria. Jesus nasceu e viveu pobre, mas pelo reforço da visão dos reis magos, construiu uma sólida perspectiva anímica pelo respeito e apreço dos companheiros de vila.

Aos seus doze anos, Baltazar, Melquior e Gaspar levaram o menino Jesus para apronfundar sua missão. Ensinaram o menino em muitos conhecimentos gerais e também o guiaram ao encontro com sua espiritualidade pertencente. Aos trinta, retorna e assim foi Jesus. Um homem, como Zoroastro. Parte do mundo e símile do imperecível.

Suas operações milagrosas foram obra de seus conhecimentos e de sua boa mente. Sua boa mente foi que tocou os corações dos menos necessitados em compartilhar com os mais necessitados, e isto não fora um simples milagre de multiplicação. Foi de seus bons conhecimentos que ele pode curar os enfermos e não de poderes divinos. Sua vestimenta mística de milagres parte do delírio aos mortos imortais. Não há poder mais divino do que isto, literalmente.

Entretanto a vontade do homem é transformar tudo em espetáculo. Parte da incompreensão ao seu próprio mistério de pertencimento. Jesus foi um grande homem. E o que este homem representou teve a ver com sua mensagem de profundidade e beleza. Sentimento este que tem de ser buscado individualmente pelo enfrentamento da miséria em si. O que não caberá em norma religiosamente cumprida.

Mas os homens temem a ressuscitar os deuses, pois assim o fazendo sentem-se seguros em não ter de temer seus próprios abismos. E como fizemos com Jesus Cristo. E como fizemos com Zoroastro. Nós os vermes continuaremos a trazê-los de volta a linha pertencente da criação.

E continuaremos devorando.

21 de dez. de 2009

A dobra da serpente

Os vermes de Marlox:

Não é da maçã que nasce a cobra, no entanto, pode ser da vontade a fonte de expansão para um tempo sem limite. Não sabemos nem quando, nem onde, mas o dia chegará para marcar a mudança que ainda não tem nome. Essa vontade não é simplesmente sexual ou virtual, mas natural.

Nesses encontros e desencontros a vida da as caras para um possível. Os entrelaces fustigados de energia não são explicáveis, mas afrontam moralismos, ditos pecaminosos e dogmáticos. O acontecimento como fonte, onde nasce e brota a esperança de ir além do conhecido.

No tempo desfragmentado não será necessário explicações ardilosas, nem mesmo articulações tempestuosas, pois as pessoas se entenderão pelo olhar e não mais pelas palavras. A violência não percorrerá as veias dos sentimentos. A liberdade não será fruto de uma vitória, mas de uma convivência fraternal.

Os relacionamentos amorosos não serão símbolos de conquistas, ou até mesmo de competência, mas de verdadeiros e sinceros sentimentos. Os significados se darão no calor da relação, ou seja, quando um não é sem o outro. Por ventura, as caricias formarão um único elo.

Nessa dobra de sentidos, constituída pela diversidade a maturidade aponta o caminho para a descoberta: a dobra valorada. Forjados na batalha, mas abastecidos da energia que não precisa de forma. O cansaço não nos vencerá, pois seremos fortes e guerreiros e na manhã do dia seguinte tomaremos café juntos.

Talvez na morte encontremos sentido para um sofrimento tão ardido, para um sentimento tão profundo, mas ao mesmo tempo enlouquecedor. De repente não saberemos jamais o porquê. A resposta não precisa ser dita, nem precisa ter um significado, pois no fundo, lá no fundo a pessoa sente o que é e o que não é.

É difícil enfrentar os desafios que corrompem nosso estado conformado. Não queremos pregar palavras, simplesmente discursos sem sentido, nossas palavras não devem ser apenas lidas ou proferidas, mas sentidas. Você faz parte desse acontecimento, deixe-se acontecer.

Abraços do irmão;
Pastor Frigido do Escudo Reverberante.

17 de dez. de 2009

Talvez no tempo da delicadeza...

Os vermes de Manuela:

Acordei sem despertar naquele dia. Todas as pulsões chacinavam-se, esgotadas. Meus pensamentos espalhados por todos os cantos, como cigarras performáticas de um verão glacial. A princípio pétalas, mas ali o caule inóspito revestido de um silêncio mortal.

Quando caminho por entre as sombras dos teus aforismos, vejo que são tão ou mais desordenados do que os meus. Não fazes idéia. Reprimiria os anseios submetidos à ordem de infração, sob teu magnetismo indesviável. Até mesmo me soltaria sem bússola caso fosse, mesmo que sem pouso. Ainda que sem repouso. Faria.

Entendo os receios, mas quanto à confiança devo alertar que sou um contra-senso aos que duvidam. Aos que não crêem sou mesmo um paradoxo, um demônio de silfos vestindo asas barrocas. Para os que não se arriscam na exuberância da soltura, aceito que me culpem. Que assim seja e me poupem de seus desgostos.

Nós somos d’outra natureza. Teu espírito também foi tecido em lugar edênico e estamos atrelados pelo mesmo fio. As mesmas dores, a mesma angústia, que já cristalizam pelas frestas de virtudes. Os subsídios já estão todos forjados.

Quanto às pedras atiradas, não procuro lapsos de bondade em olhares alheios, por onde possa encontrar ciscos de reconhecimento vulgar. Nem mesmo desejo partilhar parte da culpa através dos julgamentos de outrem. Faço por inteiro e que a conseqüência seja cabalmente minha. Hei de seguir da mesma forma, sem margem, sem método, com amor irrestrito.

Manicômios são territórios em que espíritos ordinários de olhos vazios depositam almas inquietas como as nossas. Depois que morrermos, viraremos bons poetas. Pobres, mal sabem de onde viemos, por onde andamos. Fracos, desconhecem a guerra e a honra. Ignorantes dos ventos que nos fazem içar as velas, bebendo poesia no remanso das águas. Que assim seja a sentença e custo. Cada qual sabe da própria renúncia, mesmo que seja por inabilidade.

Ainda tenho erros por cometer, e não há como ser d’outro modo. Assino cada um com nome, sangue e digital. E após toda essa deselegância virá nosso tempo, onde te alcançarei subitamente, irreversivelmente. Quiçá na face imprevista da poesia que corre a galope, abruptamente carregada pelo vento. Sem mágoa, sem volta. Por inteiro.

30 de nov. de 2009

O pau da serpente desdenha dos homens cansados.

A nossa religião não tem tempo. Não há vidas passadas e nem póstumas. De fato, só há vida. Gostamos de ser circunscritos à nossa consciência egoíca. Não há o sagrado e nem o leviano. O risco é nossa única verdade da vida. Só queremos saber o que pode ser feito e se tivessemos um deus, este seria o acidente.

A nossa religião é a preta.

A morte é um grilhão para o pequeno homem, mas é a grande aliada da preta. Nossa atuação é nos limites do desejo, portanto em nós não nos cabe o moralismo ou o tabu. Não confunda com o puro hedonismo pois a nossa proposta é mesmo de morte. É claro que partimos deste princípio para fazer valer o coração ainda quente no peito. E nós queremos saber o que mais pode ser feito.

Em nossa religião não existem líderes. Todos nós somos o máximo que nós podemos, mas não somos criadores e criaturas, nem servos e senhores. Somos o que somos e somos o que for de mais potente. Me escuta, pois eu sou teu General Feiticeiro da Foice do Juízo, e assumo o papél do pastor. Mas não somos uma pastoral, nós só queremos fazer o que pode ser feito.

Todos os que não fazem parte da preta, são cinzas. Cinzas deglutidas de sua neutralidade, cinzas como o pó de uma estrela. Nós da preta seremos pó, mas no momento só queremos saber de fazer brilhar nossa estrela. Os cinzas não tem nome e nem força, vão nascer, casar, comprar e seu momento de glória será mesmo a desejantemente indesejada morte de uma existência com sentido. O nosso tempo é o agora, o nosso tempo é também nosso lugar.

Não nos procure esperando conforto para a existência, pois ela é tudo o que há. Nada haverá após tua consciência egoíca. Nada também receberá da tua história em vida, ninguém lembrará teu nome, mesmo o lembrando. Você estará morto. Estaremos todos mortos, quando morrermos. Se tivéssemos que cultuar, nosso culto seria este. Pois nós queremos o que pode ser feito. E agora!

Atenciosamente;
Capa, Farda e Tarja.

5 de out. de 2009

Meninos, Homens e Anjos. (carta para um amigo)

Então eu os convido para celebrar a chama infinita de nossos instantes. Aproveitem! Este tempo não será de novo. E nem eu serei de novo, portanto, não procurem por mim para não perderem-se em olhos vazios. Que deixem na porta de entrada os interesses e que não tentem fazer envergonhar o outro. Não serão de antemão bem-vindos, posto que é encontro. Então que se façam apenas vindos, para que possamos nos conhecer.

Esta noite vamos atrás da capa da poesia. Quem tenta a poesia, deve estar no intento de encontrar alguma luz nestes encontros cada vez mais sombrios. Tentando, poeta louco. Como quem já não quis, fomos. E a praxe atirou palavras vazias ao ar. Um missil teleguiado, em direção ao delírio de destino, mas o trajeto morreu no tempo. Ah meu amigo. O que você fez? Elas são de se esperar.

Agora é você que procurou por ela e claro, ela está a tua espera. É claro rapaz! preste atenção! Porque te comparar por baixo! como não seria assim? A miséria dos meninos e menininhas não pede perdão à noite. Sei bem que seus dezesseis anos tanto fazem, mas ela beijou aquele, como tanto fez. Ela o provocou com lábios de outro homem, e tu o beijaste, sentiste o gosto da saliva dele, e ainda sentiste o gosto do desespero de uma criança.

Que a foice justa rasgue as gargantas dos desesperados, dos medianos, dos falsos, dos servos...

Salve Jorge!

É só a ele que devo fidelidade,
meu amigo.