14 de jan de 2010

O espectador. (texto de um amigo)

Nada melhor do que um churrasco com os colegas de trabalho após um desgastante dia de trabalho. Muita cerveja gelada, carne, som de qualidade, risadas, descontração e animação, a fim de que esqueçamos o mortífero e necessário hábito do trabalho pelo qual todos nós temos que nos submeter, com uma ressalva: atualmente eu não estou bebendo, por opção. Talvez seja uma opção pela qual eu me arrependa profundamente no futuro. Enfim...

E assim, todas aquelas pessoas que trabalham no mesmo escritório organizaram um churrasco para confraternizar, o qual foi realizado no salão de festas de um dos colegas. No início, se via que as pessoas estavam comportadas, com a maquiagem fresca em seus rostos, se comportando tal qual o fazem quando estão em ambiente profissional. Mas bastam uns goles de cerveja bem gelada e uma caipirinha bem adocicada para que as máscaras comecem a cair. Afinal, o álcool é um lubrificante social.

E como o assunto sexo não podia faltar numa roda de conversa, uma mulher, que se mostra toda comportada no seu habitat de trabalho, menciona o seguinte aos quatro cantos do salão “eu adoro fazer um sexo animal com o meu marido”. Os abobados adoraram essa frase, e ela, então, encorajada por isso, emendou: “amo fazer sexo matinal, mas me nego trepar quando meu marido está com tesão de xixi. Ele primeiro tem que mijar para depois transar comigo, e o pau dele tem que estar bem limpinho, sem qualquer cheiro ou gosto de urina”.

Para cutucá-la, eu perguntei: “e se por ventura ele acordar de pau duro porque estava sonhando contigo? Isso não seria um tesão de xixi, não é?”. Não obtive resposta. E o pior: a fanfarrona ganhou adeptas. A pauta da roda tornou-se o sexo sujo e vazio. Confesso que me senti mal. Saí dali e tomei um copo de água, aproveitando para respirar um pouco.

Quando voltei ao salão estava tocando músicas bagaceiras. Funk, para ser mais preciso. E obviamente avistei aquelas mulheres pobres dançando de maneira insinuante com o único intuito de provocar os homens. A essa altura do campeonato, noventa por cento das pessoas já estavam contaminadas com a podridão emanada inicialmente por uma única maçã podre, e todos colocaram-se rendidos, dançando ao ritmo da música “beijo na boca é coisa do passado, a moda agora é namorar pelado”.

Quando eu pensei que o pior já tinha passado, vieram duas mulheres ao meu encontro. Uma era aquela maçã podre que começou a merda toda. A outra, uma coitada reprimida que bebeu um pouquinho, achou engraçado o que a primeira fez, e resolveu segui-la.

Ambas começaram a me elogiar e a se insinuar. Muitos toques, palavras no ouvido e olho no olho. Num determinado momento, ambas falaram que queriam sair comigo naquele momento, direto para um local reservado, para nos conhecermos melhor. Para não ser grosso, me esquivei, falando que elas estavam bêbadas e só estavam falando aquilo tudo da boca para fora. Mas, no fundo, eu senti que elas estavam querendo mesmo era trepar a noite inteira. Senti no rosto delas, no jeito delas falarem e de me tocarem, mesmo elas sendo casadas.

Quanto mas eu neguei, mais elas queriam. Não tinha mais forças para suportar aquilo tudo. Era muita coisa para uma noite só. Saí do salão e sentei num banco que ficava localizado perto da pracinha do condomínio. Fiquei lá por alguns minutos, pensativo, quando uma das minhas colegas de trabalho sentou-se ao meu lado. Uma pessoa que eu nunca dei a mínima, pois sempre achei ela muito comum, igual a todas estas que se encontra em qualquer lugar. Uma pessoa, até então, sem qualquer encanto.

Então, ela perguntou o motivo de eu estar ali parado e eu, prontamente, expliquei, com enorme tristeza. Eu me abri para ela. E ela, ao me escutar, respirou fundo, e também se abriu para mim. Ela retirou o véu que estava sobre a sua face este tempo todo, e pude, então, enxergar um pouco da sua essência. Uma linda mulher, com lindas intenções. Com um enorme potencial. No cotidiano, age de um jeito comum porque os homens assim a tratam e não dão o valor que lhe é devido. Vi isso. Ela quer amar. E ser amada. Não quer mais ser um objeto sexual. Não quer mais ser comida e comer os outros.

E então, a minha noite que tinha tudo para ser uma catástrofe, teve um momento bom, com sinceridade. Encontrei um brilho atrás da neblina cinzenta.

Guerreiro Intrépido da Mão de Gelo.

Um comentário:

  1. Amém, meu querido amigo. Não sabe como me alegra te ter toda a fé. E a gente sabe que é de fé que a vida é feita, e por isto a vida é feita para nós.

    Eu te diria ainda, sobre o texto, que a mulher não quer é sentir-se carniça, para ser comida por urubus. Mas a morte é presente nos coitos perversos. Um churrasco se perverte logo numa desesperada orgia, como se o tempo estivessse contra nós, como o vento contrário.

    Estes insetos ziguezagueando sem rumo não tem escolha a não ser procurar pela luz, que foi tu. Meu grande amigo, ser guerreiro é exatamente isto. Mais do que fazer jorrar sangue e vangloriar-se de conquistas. É manter-se. É acreditar. É doar-se ao verso.

    E sorte a tua amigo, pois a vida acompanha aos aventurados dela. Estamos com ela e não abrimos para nada se não ao seu infinito. Estou contigo desta forma meu fiél companheiro.

    DÁ-LHE!!!

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