13 de dez de 2014

Se apaixonar é morrer em paz.

Dizem que a paixão acaba depois de um tempo
Mas eu sei bem que paixão vem de pathos
Como patologia que desvia nossa norma comum

Que nos altera à consciência da realidade
Nos tornando alienados e diagnosticamente
Doentes perante os normais

E também sei que não tenho mais jeito.
Uma vez destruído do que acreditei em minha verdade - e sobrevivi
Nunca mais ponho minha convicção no fogo

De fato, do árabe hatu, que compreende origem duvidosa
O fogo não tem razão a não ser seu ato pulsante
Rasgando as normas neuróticas de existir - no discurso que lhe chama de louco.

E assim sendo ato e não coisa
Me apaixonei por ela

Perturbada, traumática e doente
Apaixonada por mim vomitando seu desejo patológico

Já ha quase dois anos me projetando sua doença em forma de carinho
Ela não tem mais jeito de se curar
Este amor doente nos gruda como vicio

Sofro a dependência de uma eterna passagem incurável
Que não nos conta a vida em linha de bodas
Gira a ampulheta pra manter os grãos no centro

Destrói tudo que temos para depois criar
Como a natureza de um caos infernal
Que me abraça querendo me matar

Sentindo a morte em seus quadris
A fodendo como a última trepada
A morte de uma namorada me come sorrindo

 E na mente um mantra:
"se apaixonar, é morrer em paz"

13 de set de 2014

Destino

Ele sabia que ia morrer cedo - e disse pra ela

Ela, seis anos mais velha que ele, viu-lhe no corpo somente a verdade – e se assustou

Naquele campo milagroso que tinha fantasiado sua vida, não tinha previsto tal final.

(Ele iria morrer antes)

Todo seu plano de parir os filhos junto dele agora mudavam de uma família completa para uma mulher viúva.

Viu o semblante intrépido de seu homem e sabia que estava diante de um destino consumado. A integridade serena com que ele caminhava era, o que afinal, a fez visualizar um futuro seguro.

Mas o presente agora lhe arrancava o sonho como um aborto; de sua própria expectativa

E ela chorou tanto; em falência de toda a razão que tinha projetado os dois unidos.

Somente uma frase diante da evolução ou suicídio:

- Mesmo os pares sinceros nos traem.

28 de jul de 2014

Do pó do corpo ao pó do grafite (2)

Quando escrevo é da necessidade de deixar um testemunho. A força mais agressiva que debate meu corpo é que um dia deixarei de existir. Por isto escrever para mim é um grito fúnebre buscando o encontro epocal. Intento mostrar a intensidade que me surge a vida; tento deixar póstumo o que valeu e o que me matou em minhas idades.

Certamente o que me matou foram as contas. O emprego e a necessidade de ter de ser um sujeito prestável na roda capital. Mesmo que nestas pequenas batalhas do cotidiano sempre tenha vencido a dívida, fui fraco para deixar que mês em mês ela me maltratasse. Talvez este sofrimento foi o que me fez organizar para que isto não me vencesse. Como se isto fosse vitória...

Mesmo convicto de que todos morreremos em qualquer história que possamos ter. Fui um pai nobre em espirito, um amante zeloso, um militante excelente da permanente minoria social. Qualquer virtude ou maldade morrerá na história. Eis minha certeza!

O humano é como uma Vaca, um Braquiossauro (Aquele dinossauro gigante pacato e perfeito mascando o pasto). Somos passivos e frágeis. Tão perfeitos feitos assim. Mas de onde vieram estes senhores pensantes que odeiam qualquer partilha de encontro com um ser sem ambição? Que interesse podemos ter que seja mais quente que sentir em pele de bebê o tato do sol maior?

Diógenes, o mendigo, soube traduzir esta inversa relação entre os homens que tem tudo e os que tem interesses de tudo. Disse ele ao ser abordado por Alexandre (o rei da época) que lhe ofereceu qualquer desejo por acreditar em sua sabedoria:

- Eu tenho tudo e tu podes também. Desejo apenas que saias da frente, pois estás atrapalhando o meu sol.

21 de mai de 2014

Uma carta para Max (em uma pausa de mil compassos)

Esta vai para este menino máximo, o Max! Carrega em si o super homem. De longe extrapola o normal. Extrapolar no dicionário quer dizer que excede os limites do bom senso. Prefere duvidar a tirar conclusões com bases limitadas.

E o bom senso a gente sabe que é sempre bem-vindo. Não tenta sentir o encontro que é somente vindo para nós e que pode sim ser mal encontro. Quem carrega esta mensagem comum onde tudo é esperado supõem-se o bem. Mas nem sempre é assim. Quem excede sabe que tudo é ilimitado. Mal encontro pode ser o teu bem-vindo, nossas esperanças são o fracasso do destino.

Mas ao lado das pessoas nosso corpo vibra. Ansiosas e interesseiras modificam o humor do louco. E este guri (me desculpe te chamar assim) vem me dizer que sente-se mal e se culpa da norma comum  do que lhe excede. Porque nós loucos, afinal, sofremos pelo dito e sentido por esta massa de gente segurando a mesma corda?

Eu sei que eles são demais em números. E depois ainda dizem que nós -que tentamos procurar todos os lado do leque- é que somos os estranhos. De fato somos, estranhos porque fugimos da norma, porque a vida é mais forte e dobra a razão de todas nossas esperadas verdades, constrangidas em uma mensagem civilizatória.

Quantos anos tens Max? Vinte e cinco? Vinte e quatorze (adolescente), vinte e doze (criança) ou vinte e eternos? Com qual calculo faremos a conta? Aposto que já viu um jovem carregar a sabedoria de um velho, como um velho a carregar a juventude imperecível. Salve Raul!

O Max, pra quem não sabe, toca o melhor teclado (órgão de um corpo sem órgão [para completar a poesia]) que já vi pulsar o jazz. Sorte tua rapaz! Tem este dom em tuas notas. Pois te digo que existem outros loucos estranhos, alienígenas para este mundo, que não carregam uma ferramenta que alcança o senso comum.

"Eu sou louco" ele me disse e entendi. Porque aprecio a perícia fenomenal que tens ao tocar teu som (que eu viajo no teu teclado). Tu mostra aquilo que para todo mundo é um sonho distante. Tu vai lá dentro do abismo inexplorado. Traz o infinito, um pedaço dele, escancarado ao ser ordinário que foi ensinado e ser sempre igual.

Obrigado Max e por favor,
não se sinta mal.

14 de mai de 2014

A redenção de um demônio

De alguma forma sei que eles me agradecem pelo nosso encontro
Eu provoco
Eu sei que provoco

E não foram poucos que iniciaram alguma droga comigo
Ou os que não voltaram para casa no horário programado
Ou os que tiveram de faltar o trabalho matinal

Todo mundo falta
Um dia fica doente
Eu lhes disse:
Não há suposto mal.

Mas todos eles vomitaram no dia seguinte
E vê a merda
Depois me disseram que o mal-estar foi tamanho
Que sentiram-se tão mal
Que entenderam que o bom caminho era o seu antigo comum

Como os outros
Não entenderam que todo o vômito
É a maneira que o corpo reage para se perder de si:
Monótono, constrangido, moribundo.

Se no teu fim eu te chegar e perguntar assim:
Preferia vomitar teu corpo algumas vezes em busca de viver outros que pudesse ser?
Imagina em quem mais transformaria tua personalidade imutavel?
Ou preferia estar assim, agora morto de toda tua vida

Exatamente como te vi no passado.

7 de mai de 2014

Uma oportuna de Niezche (em tempos de discussão sobre os macacos)

O que é o macaco para o homem? Uma risada ou uma dolorosa vergonha. E é isso mesmo que o homem deve ser para o super-homem: uma risada ou uma dolorosa vergonha.Haveis percorrido o caminho desde o verme até ao homem e em vós ainda há muito de verme. Em tempos, fostes macacos e, ainda agora, o homem é mais macaco que qualquer macaco.

26 de jan de 2014

Um livre estrago.

São 05:55 da manhã
Estou me namorando.
Não trabalho amanhã
Não preciso comer
Não preciso me cuidar
Estou me namorando
E o namoro é estrago

Mas é tão diferente quando
Respondo por mim

Este meu estrago é só meu
Nínguem interfere nele
Dizendo que eu devia estar sóbrio
Ou ter mais cuidado
Ou entrar pra ioga
São exatamente 06:00 da manhã
E meu estrago é livre

Farei agora um brinde livre
Ao meu estrago e eu
Percebo que meu corpo pede descanso
E que o sol pede passagem
E busco uma cerveja
Para celebrar
O meu livre estrago

Nínguem pode interferir
Se eu me acabo

Dentro de tantos acordos
Interesses
Contas
Sonhos que me projetam
Faltas que me fazem creer
O meu estrago amigo
É o que me deixa livre

De morrer

Entre comer, devorar e o apetite.

Saí na rua depois de tanto tempo. Tanto tempo quanto nos provoca o Senêca:

  • Vamos, faz o cálculo de tua existência! Conta quanto deste tempo lhe foi tirado.

Hoje teci Vida entre os nós! E me lanço em conversa com o rapaz que carrega consigo o estigma do marginal. De cara este me pergunta: “vai querer o que?” Indicando ser uma relação de consumo entre nossos encontros. Ele realmente interpreta a margem e imagina que outro vivo de cultura diferente o vê assim também. No caso, o outro sou eu, ele não percebe que o eu é o outro.

Disse que não queria nada e que só vim lhe falar. Ele acha estranho e me pede um cigarro. Mas que porra é esta que nossas relações precisam ser do interesse? Lembro de Birman dizendo que nos atualizamos como sujeito a partir das conquistas impostas sobre o reconhecimento do outro. Sobre o outro. Na doença da modernidade precisamos do outro para manter um Eu. Triste eu, que está sempre sozinho.

Ainda assim insisti na conversa; carrego um tabaco no bolso que tensiona um hiato ao instantâneo e ofereço. Ele aceita dando tempo à calma... Aí mais tarde ele se apresenta e diz que se chama “Gigante” e assim quase faço um amigo. Mas já estou velho para isto! Estes montes de gente juntas tão distantes no estar. Como aqueles meus amigos que saem para dançar.

Eles vão para a noite e temem. Olham tantas mulheres se divertindo e as desejam. Ficam maquinando um passo para apressar algum esbarro. Um esbarro sem dúvida; pois nunca será um encontro quando tensionado deste jeito. Treina tuas frases e chega que, na minha opinião, vais ao encontro de estragar a ocasião. Existe muito desencontro no encontro. O acaso é o grão.

E um bom amigo diz que vai comemorar seu quarenta e onze anos! Está claro amigo que tu não te enquadra na mensagem social de um velho cinquentão. Tamanho vibra intensamente o teu viver. Cinquentão é só uma palavra que esquece o homem adulto, velho, criança, devir que somos. Me permita dizer em meu diário blog: Tenho quarenta e milhões de anos. Tenho zero e milhões de anos.


E se eu costumo dizer para meus amigos afoitos que tenho muita habilidade em encontrar (o par). Falo de um lugar de fora do ego e da experiência do meu corpo. Falo de um canto quase esquecido, onde parar, não se mover, significa destino. Não espero nada! Pense bem. Quantos homens como nós passaram na história? Uns comeram mais, outros menos. Você quer mesmo falar de comer, se nem apetite tens?