21 de set de 2009

Um lamento de intimidade


Se há lugar, há o outro. por mim eu estaria contornando estrelas a esta hora. Soprando dilúvios e vendo corpos afogando. Quem precisa de face? Mas não, mais uma vez me vêm o amor. Mas o que tu ama nos outros? - pergunta o Nietzche. Espera, espera, espera, espera. É o amor passando. Mas nossas esperanças amam em fragmento.

E lá vêm a turma dos pretensos iluminados! E vão me dizer que amor é desapego, é livre. É vegetariano? Tua fala não escapa de uma captura libidinal para teu sentido. Ah garoto, quero ver na presa de uma leoa barganhar tua crença. Agora pare com tanta sedução e olhe nos olhos do bezerro desgarrado. São negros ingênuos iguais aos teus, agora os arranque com os dentes. Obrigado irmãozinho. Sim eu te perdoo.

Perdão é devolver ao outro o que é dele. Circunscritos no tempo e no espaço, embora não extraídos dele, assim são os outros. Então criança esperta, não venha dizer que somos a mesma bola de carne na grande salada da terra. A noite sabe bem os tropeços sobre as sombras da intimidade, e que ela nos perdoe o desencontro do espírito em corpos entrelaçados sobre seu nome.

E agora Mirdad? Eu amei uma mulher. Sim, eu escolhi a folha; aquela única e linda folha. É claro que eu amo a árvore, a raiz e o solo. Então porque eu escolhi a folha? Eu sacrifico em prol da inteligência mas é preciso inteligência em prol do sacrificio. Escolhi porque eu quis. Sei bem que aquela linda folinha que escolhi, faz tremer toda raiz.

E que me torçam o nariz os fetichistas a tentar roubar o meu olhar. Que procurem seus olhos perdidos na cova do corvo e que enxerguem em cada folha a beleza do todo. Mas mesmo as folhas não se enxergam. Estas folhas desconfiam entre si, e do tronco, e do solo, e da fruta. Não conseguem ver a intimidade de ligação. Teimam que são árvores inteiras. E assim sois.

Mas confiar no outro é a afirmação de si mesmo. A abstração de amor de longe me parece o amor mais lindo em sintonia do imperecível. Mas pra viver intimidade nos homens, há de esperar. A intimidade e o prazer desconfortam tanto o outro, que o prazer confunde-se com a dor de perder-se inteiro. E aí vendem e compram suas relações os homens, inventando o descartável para salvaguarda do medo.

Ah como eu queria poder viver intensamente a intimidade universal. Mas não é desta feita a cultura. E nem de seus pensamentos incestuosos e nem das casas de swing poderá ser retratada a intimidade em sua forma glória. Portanto eu escolhi assim. Formatei esta folha para mim. E que de meu sopro-fogo eu possa vê-la verdejar de vida e nela poder oxigenar minha alma, em seu retorno.

9 de set de 2009

Diabo, o cozinheiro.

Quer escutar uma boa história?

- Disse o verme, enquanto mastigava pedaços de peles e fezes.

A história é sobre a visita à cozinha do diabo, a mais recente história da humanidade. Venha comigo, eu te ingresso à corda da época. Você se lembra do primeiro assassinato? Pela tribo da serpente a lança do ciúmes pela primeira vez matava com intenção. Não foi uma morte comum, exceto, é claro, para nós os vermes. Que o devoramos como todos os outros.

Mas aqueles macacos nunca mais foram os mesmos. Suas faces desamparadas, de olhar ao vazio, sem saber o que fazer ou o que fizeram, era o reflexo do que seria o nascimento da humanidade. Estes sentimentos impuros de nada tinham a ver com a linha direta da conexão. É claro que eles seriam expulsos. E assim foram batizados: estes mutantes cuspidos, agora carregavam o fardo do vazio. Seu gosto era delicioso.

Nós, os vermes, continuamos a preenchê-los mastigando suas carcaças. Mas eram mesmo estranhos estes novos macacos, e mesmo em nosso esforço de devorá-los de volta à união, eles temiam e orgulhavam-se em serem divididos. Mas até então, estes agora homens eram covardes demais para assumir seu orgulho. Fisicamente eram um dos menos providos da criação, seus corpos e espíritos fracos, morriam com o bater de um vento contrário. Eles nunca entenderam o vento, e sempre o tomaram como contrário.

Eram mesmo deliciosamente despreziveis estes homens. Todas as criaturas empinavam o nariz para com eles. Os animais mais nobres renegavam suas carnes, os mais gentis, os carregavam por pena. Desesperados, agarraram-se à uníca lembrança que tinham de sentido. Mas estes homens pouco lembravam da união e por isto como tentativa desesperada de aplacar sua angústia dividiram o mundo em busca do intento de Deus.

Queriam voltar ao útero de si mesmos. Inventaram histórias e ícones para suas crias. E assim também, criaram os preconceitos, separando em definitivo a razão do verbo. Seu ópio era a esperança. Assumiram-se como criaturas impotentes de um projeto maior, onde deviam açoitar-se à vida, a fim de receber uma esperada redenção fatal. Seus bitolados olhos eram incapazes de perceber que nós, os vermes, sempre lhes demos esta redenção.

Mas foi aí que dividiu-se também Lúcifer. O diabo, como foi chamado, sentia grande compaixão para com os homens, e não suportou vê-los tão afastados da linha tênue da potência. Viu no desamparo e medo dos homens, a oportunidade de lhes trazer à luz. Alguns disseram que o diabo havia enlouquecido, outros viam em sua loucura, a lógica misericordiosa do sacrifício. O fato é que o diabo tornou-se o patrono do abismo e com convicção rasgou-se da conexão, para abraçar a humanidade.

E foram muitos os esforços do diabo em amparar o homem. O satanás é patrono da cidade. E ensinou ao homem o batismo da etiqueta. Impulsionou o homem a ser jogado nas profundezas de seu abismo, a ousar e a apoderar-se de suas trevas. Era o caminho de luz traçado. Mas o homem, medroso e desconfiado, renegou o abraço de Lúcifer e autuou seu caminho com mais preconceitos. Vendiam suas ordens morais a quem ousasse, e ao diabo coube o papel de cozinheiro. No abismo permaneceu alimentando os desejos do homem.

A humanidade voltou-se para a manutenção desta postura e da acomodação dos seus corpos na terra. Pensavam que a disseminação de sua prole virótica lhes daria, à força, o direito de pertencer. Mas a própria busca pela sua inventada pureza não era nada pois fragmento. Seres delirantes como são, precisavam reconhecer-se como coisa. E pensavam que, enquanto estivessem devorando, o vazio existencial de seus corpos lhes pareceria silenciado.

Mas sua fome desregulou-se. Nós entendemos de fome, aquilo nunca foi fome. Uma deglutição nervosa que voltou-se para o externo de si. A ordem era de progresso, tentavam aplacar o ronco abismal pela conquista. Mas o que eles silenciaram, no entanto, foi o crescimento deste vazio afastando ainda mais a real conquista de seu protagonismo pertencente. Engoliram tanto veneno como forma de anestésico, que acabaram não percebendo a corrosão. Nós entendemos de corrosão e estes humanos estavam perdendo o seu gosto.

E olha a humanidade; masturbando-se às expectativas. Desperdiçando o amanhecer a cada sorriso condescendente. A cada palavra de cura colhendo um pouco de morte. Uma face incestuosa a cada gesto de condolência. Quão complexo se tornaram os homens, e quão alienados. Inventaram tronos de exílio e palácios. O ódio que tinham de toda criação pertencente aumentava à medida que sua existência perdia sentido. E devoravam e devoravam. Desta vez não haveria barganha quanto a destruição. E o vazio aumentava.

O Diabo continuou a fazer seu caminho; encorajando o homem na experimentação de seus desejos maís íntimos e ao embate com sua sombra. E continuou a ser renegado; os homens lhe fechavam os olhos e torciam o nariz à sua presença. No entanto, deliciavam-se em segredo com suas manhas. Você sabe, o diabo, elegante como é, não cobraria devoção nem mesmo reconhecimento dos homens por isto e, pacientemente, torceu pelo sucesso deles esperando o dia que eles se sentissem à vontade.

Eu te disse antes que a criação da humanidade veio pela sua expulsão da linha do pertencimento, não disse? Mas é claro, à boca do verme, estes homens são pouco diferentes de macacos. Mas alguns destes homens, realmente foram diferentes de qualquer outra espécie. E é destes, que eu relataria o nascimento do ser homem. Vieram de épocas diferentes. Eram homens como os homens, mas alguma coisa ressoava no seu sacrifício.

A humanidade estava tão prenhe de orgulho, que se tornara a espécie mais solitária de toda existência. Não conseguiam dialogar que não fosse pela norma. Mas estes homens queriam saber do que andavam se alimentado na cozinha do diabo e rasgaram a linha tênue de sua época. Desvendaram o demasiado humano em si, o feio e o ruim. E assim tornaram-se homens e afogaram em si um oceano.

Estes desbravadores do imperecível estavam fartos com a humanidade. E furiosamente irritados, abriram as portas da cozinha. Disseram com todas as palavras que embaixo estava a fonte, e que deixassem aos escuros dizerem inferno. Este convite reverberou ao longo do tempo, foi silenciado e assassinado por muitas vezes mas recentemente, acuados sob a casa dos espelhos, a humanidade enxergou sua contradição. O espelho tornou-se vazio e seu simulacro insustentável. Os homens racharam-se novamente em desamparo.

A imagem abismal é algo indescritível. Lá no topo os homens ficaram maravilhados com sua vista e temerários com sua queda. Desesperados de ter tido sua existência servil apenas de alimento para nós, os vermes, os homens jogaram-se no abismo. Mas estes jogaram-se por medo, diferente daqueles que antes o fizeram por coragem. Nós passeamos pelo abismo. O abismo engole os homens covardes na escuridão.

Este é o atual estado da humanidade. A vagina fria de suas mães esfregada às faces. Os demônios, anjos, deuses e mesmo o diabo, por eles criados estão perdidos. Entregues às sombras do palácio do exílio a vergonha e o medo são pervertidos em gozo negro. Apavorados, muitos procuram reforçar a obediência, enquanto outros enrolam-se na lama mais profunda do lodo abismal.

- Pausa o verme e ri.

Quer saber uma utopia? Agora estes homens carregam o odor constante da morte em seus coitos e nós nos tornamos o mais próximo retrato de sua procura a Deus.

- E arrastando-se sinuosamente foi o verme; procurar um coração a esbulhar de sobremesa.