9 de set de 2009

Diabo, o cozinheiro.

Quer escutar uma boa história?

- Disse o verme, enquanto mastigava pedaços de peles e fezes.

A história é sobre a visita à cozinha do diabo, a mais recente história da humanidade. Venha comigo, eu te ingresso à corda da época. Você se lembra do primeiro assassinato? Pela tribo da serpente a lança do ciúmes pela primeira vez matava com intenção. Não foi uma morte comum, exceto, é claro, para nós os vermes. Que o devoramos como todos os outros.

Mas aqueles macacos nunca mais foram os mesmos. Suas faces desamparadas, de olhar ao vazio, sem saber o que fazer ou o que fizeram, era o reflexo do que seria o nascimento da humanidade. Estes sentimentos impuros de nada tinham a ver com a linha direta da conexão. É claro que eles seriam expulsos. E assim foram batizados: estes mutantes cuspidos, agora carregavam o fardo do vazio. Seu gosto era delicioso.

Nós, os vermes, continuamos a preenchê-los mastigando suas carcaças. Mas eram mesmo estranhos estes novos macacos, e mesmo em nosso esforço de devorá-los de volta à união, eles temiam e orgulhavam-se em serem divididos. Mas até então, estes agora homens eram covardes demais para assumir seu orgulho. Fisicamente eram um dos menos providos da criação, seus corpos e espíritos fracos, morriam com o bater de um vento contrário. Eles nunca entenderam o vento, e sempre o tomaram como contrário.

Eram mesmo deliciosamente despreziveis estes homens. Todas as criaturas empinavam o nariz para com eles. Os animais mais nobres renegavam suas carnes, os mais gentis, os carregavam por pena. Desesperados, agarraram-se à uníca lembrança que tinham de sentido. Mas estes homens pouco lembravam da união e por isto como tentativa desesperada de aplacar sua angústia dividiram o mundo em busca do intento de Deus.

Queriam voltar ao útero de si mesmos. Inventaram histórias e ícones para suas crias. E assim também, criaram os preconceitos, separando em definitivo a razão do verbo. Seu ópio era a esperança. Assumiram-se como criaturas impotentes de um projeto maior, onde deviam açoitar-se à vida, a fim de receber uma esperada redenção fatal. Seus bitolados olhos eram incapazes de perceber que nós, os vermes, sempre lhes demos esta redenção.

Mas foi aí que dividiu-se também Lúcifer. O diabo, como foi chamado, sentia grande compaixão para com os homens, e não suportou vê-los tão afastados da linha tênue da potência. Viu no desamparo e medo dos homens, a oportunidade de lhes trazer à luz. Alguns disseram que o diabo havia enlouquecido, outros viam em sua loucura, a lógica misericordiosa do sacrifício. O fato é que o diabo tornou-se o patrono do abismo e com convicção rasgou-se da conexão, para abraçar a humanidade.

E foram muitos os esforços do diabo em amparar o homem. O satanás é patrono da cidade. E ensinou ao homem o batismo da etiqueta. Impulsionou o homem a ser jogado nas profundezas de seu abismo, a ousar e a apoderar-se de suas trevas. Era o caminho de luz traçado. Mas o homem, medroso e desconfiado, renegou o abraço de Lúcifer e autuou seu caminho com mais preconceitos. Vendiam suas ordens morais a quem ousasse, e ao diabo coube o papel de cozinheiro. No abismo permaneceu alimentando os desejos do homem.

A humanidade voltou-se para a manutenção desta postura e da acomodação dos seus corpos na terra. Pensavam que a disseminação de sua prole virótica lhes daria, à força, o direito de pertencer. Mas a própria busca pela sua inventada pureza não era nada pois fragmento. Seres delirantes como são, precisavam reconhecer-se como coisa. E pensavam que, enquanto estivessem devorando, o vazio existencial de seus corpos lhes pareceria silenciado.

Mas sua fome desregulou-se. Nós entendemos de fome, aquilo nunca foi fome. Uma deglutição nervosa que voltou-se para o externo de si. A ordem era de progresso, tentavam aplacar o ronco abismal pela conquista. Mas o que eles silenciaram, no entanto, foi o crescimento deste vazio afastando ainda mais a real conquista de seu protagonismo pertencente. Engoliram tanto veneno como forma de anestésico, que acabaram não percebendo a corrosão. Nós entendemos de corrosão e estes humanos estavam perdendo o seu gosto.

E olha a humanidade; masturbando-se às expectativas. Desperdiçando o amanhecer a cada sorriso condescendente. A cada palavra de cura colhendo um pouco de morte. Uma face incestuosa a cada gesto de condolência. Quão complexo se tornaram os homens, e quão alienados. Inventaram tronos de exílio e palácios. O ódio que tinham de toda criação pertencente aumentava à medida que sua existência perdia sentido. E devoravam e devoravam. Desta vez não haveria barganha quanto a destruição. E o vazio aumentava.

O Diabo continuou a fazer seu caminho; encorajando o homem na experimentação de seus desejos maís íntimos e ao embate com sua sombra. E continuou a ser renegado; os homens lhe fechavam os olhos e torciam o nariz à sua presença. No entanto, deliciavam-se em segredo com suas manhas. Você sabe, o diabo, elegante como é, não cobraria devoção nem mesmo reconhecimento dos homens por isto e, pacientemente, torceu pelo sucesso deles esperando o dia que eles se sentissem à vontade.

Eu te disse antes que a criação da humanidade veio pela sua expulsão da linha do pertencimento, não disse? Mas é claro, à boca do verme, estes homens são pouco diferentes de macacos. Mas alguns destes homens, realmente foram diferentes de qualquer outra espécie. E é destes, que eu relataria o nascimento do ser homem. Vieram de épocas diferentes. Eram homens como os homens, mas alguma coisa ressoava no seu sacrifício.

A humanidade estava tão prenhe de orgulho, que se tornara a espécie mais solitária de toda existência. Não conseguiam dialogar que não fosse pela norma. Mas estes homens queriam saber do que andavam se alimentado na cozinha do diabo e rasgaram a linha tênue de sua época. Desvendaram o demasiado humano em si, o feio e o ruim. E assim tornaram-se homens e afogaram em si um oceano.

Estes desbravadores do imperecível estavam fartos com a humanidade. E furiosamente irritados, abriram as portas da cozinha. Disseram com todas as palavras que embaixo estava a fonte, e que deixassem aos escuros dizerem inferno. Este convite reverberou ao longo do tempo, foi silenciado e assassinado por muitas vezes mas recentemente, acuados sob a casa dos espelhos, a humanidade enxergou sua contradição. O espelho tornou-se vazio e seu simulacro insustentável. Os homens racharam-se novamente em desamparo.

A imagem abismal é algo indescritível. Lá no topo os homens ficaram maravilhados com sua vista e temerários com sua queda. Desesperados de ter tido sua existência servil apenas de alimento para nós, os vermes, os homens jogaram-se no abismo. Mas estes jogaram-se por medo, diferente daqueles que antes o fizeram por coragem. Nós passeamos pelo abismo. O abismo engole os homens covardes na escuridão.

Este é o atual estado da humanidade. A vagina fria de suas mães esfregada às faces. Os demônios, anjos, deuses e mesmo o diabo, por eles criados estão perdidos. Entregues às sombras do palácio do exílio a vergonha e o medo são pervertidos em gozo negro. Apavorados, muitos procuram reforçar a obediência, enquanto outros enrolam-se na lama mais profunda do lodo abismal.

- Pausa o verme e ri.

Quer saber uma utopia? Agora estes homens carregam o odor constante da morte em seus coitos e nós nos tornamos o mais próximo retrato de sua procura a Deus.

- E arrastando-se sinuosamente foi o verme; procurar um coração a esbulhar de sobremesa.

9 comentários:

  1. O que vou te dizer, Verme? brilhante!

    ResponderExcluir
  2. “Um homem pode pescar com o verme que comeu o rei e comer o peixe que comeu o verme (...) um rei pode fazer um belo desfile pelas tripas de um mendigo.” Sheaksepeare??

    ResponderExcluir
  3. Eu nunca tinha visto. Tu sempre me traz frases lindas, Dani. valeu!

    ResponderExcluir
  4. Mas esse verme tem língua solta!!

    opppsss , vermes tem língua ?

    Genial!!

    ResponderExcluir
  5. mais um:
    "O homem por sobre quem caiu a praga / Da tristeza do Mundo, o homem que é triste / Para todos os séculos existe / E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada, pois, nada há que traga / Consolo à Mágoa, a que só ele assiste / Quer resistir, e quanto mais resiste / Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga / Sabe que sofre, mas o que não sabe /.É que essa mágoa infinda assim, não cabe / Na sua vida, é que essa mágoa infinda / Transpõe a vida do seu corpo inerme; / E quando esse homem se transforma em verme / É essa mágoa que o acompanha ainda!"
    (Augusto dos Anjos, Eterna Mágoa).

    ResponderExcluir
  6. UUUUUFFFAAAAAAAAA!!!! Q texto enoooorrrmeeee!
    Vou pensar a respeito.
    A propósito, vc conhece Fenando Pessoa ou melhor, seu heterônimo Alberto Caeiro? Tem muito a ver com vc.
    É DELE: - Não Basta
    Não basta abrir a janela
    Para ver os campos e o rio.
    Não é bastante não ser cego
    Para ver as árvores e as flores.
    É preciso também não ter filosofia nenhuma.
    Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
    Há só cada um de nós, como uma cave.
    Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
    E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
    Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

    Bjs. Luiza

    ResponderExcluir
  7. E este então do mesmo poeta, com o alter-ego Álvaro de Campos:
    Na Noite Terrivel
    Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
    Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
    Relembro, velando em modorra incômoda,
    Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
    Relembro, e uma angústia
    Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
    O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
    Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
    Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
    Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
    Na ilusão do espaço e do tempo,
    Na falsidade do decorrer.
    Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
    O que só agora vejo que deveria ter feito,
    O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
    Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
    Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...

    Se em certa altura
    Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
    Se em certo momento
    Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
    Se em certa conversa
    Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
    Se tudo isso tivesse sido assim,
    Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
    Seria insensivelmente levado a ser outro também.

    Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
    Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
    Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
    Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
    Claras, inevitáveis, naturais,
    A conversa fechada concludentemente,
    A matéria toda resolvida...
    Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

    O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
    Em sistema metafísico nenhum.
    Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
    Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
    Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
    Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

    Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
    Como uma verdade de que não partilho,
    E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.

    ResponderExcluir