25 de dez de 2009

Adão, Eva e os filhos do incesto.

Hoje contarei a história do nascimento de Jesus.

- Disse o verme enquanto, de costume, mastigava os restos de sofrimento e desamparo da ceia de natal.

Mas antes é preciso falar sobre outro grande homem, o profeta Zoroastro. Na história da humanidade, muito antes de Jesus, nascia um bebê sorrindo ao arrastar-se das paredes do ventre. Nesta época, os deuses eram pequenos como reis, orgulhosos e avarentos naquilo que lhes fechada o divino; e ao homem, que neles sustentavam suas feridas de existência, lhes cabia o temor.

Foi por este temor que eles renegaram Zoroastro. Um bebê não pode nascer sorrindo ao ver mundo tão escuro, diziam eles. O fato de Zoroastro nascer sorrindo, atentava desmantelar todo mecanismo patológico que sustentava os homens e os deuses como pertencentes à existência. Os deuses estavam furiosos. Este bebê ameaçava rasgar a corda do tempo e se assim o fizesse, tornar-se-ia imortal o que acabaria por suicidar todos os deuses e empurrar os homens abismo abaixo.

Assim iniciava Zoroastro sua caminhada aos astros. E desde o inicio pôs-se com coragem a enfrentar os deuses e tudo o que existe. Zoroastro, o matador de deuses, como todo homem que excedeu-se, enfrentou seus medos no abismo. E um dia, assim como Zoroastro passou por Nietzche em seus indagamentos, Vohu Mano passou por Zoroastro e os dias tornaram-se todos.

Vohu Mano é para Zoroastro a representação da afirmação incondicional da existência. Vohu Mano, a boa mente, é o batismo de sabedoria em Zoroastro, que em sua batalha com os deuses, erguia-se imaculado. Os imortais estavam mortos e Zoroastro detinha o selo da imortalidade finita em seu sorriso.

Zoroastro agora era homem, parte de toda criação e também símile do imperecível. Sua boa mente o levou a compartilhar sua mensagem com seus irmãos de espécie. Mas os homens sempre foram medrosos e desconfiados e não aceitaram a visão ampla de Zoroastro. Estavam hermeticamente acomodados em suas representações existenciais e não podiam tolerar ruptura.

Acontece que estes deuses eram nada pois fragmento de delírio do homem e sua onivontade dar-se-ia apenas no campo limitado de seus territórios. E quando o cavalo do governante dos homens adoecera e estava prestes a morrer, todos os deuses foram convocados para curá-lo mas nenhum o pode fazê-lo.

Sem mais opções o governante foi à procura de Zoroastro, que se prontificou de bom grado a olhar por seu cavalo. Todos ficaram pasmos ao ver que o cavalo havia sido curado pelos cuidados dele e o exaltaram como operador de milagre. Zoroastro, porém, lhes contou que nada tinha feito de milagroso e que só usara uma medicina comum em sua terra natal.

Ficaram encantados com a simplicidade e honestidade de Zoroastro e se prontificaram a escutar de novo a sua mensagem. Pudera Zoroastro ter se adquirido de poderes e mantos místicos ele manteve-se fiel ao verso criador, sua boa mente, e assim pode espalhar sua mensagem aos novos olhares dos homens. Esta é a história de Zoroastro, o matador de deuses, o observador dos astros.

A partir deste ponto, muitos outros começaram a compartilhar a existência com esta boa consciência de Zoroastro e estes eram chamados de Zoroastras. O Zoroatrismo é isto, literalmente, isto. Não se baseia em milagres, ou anjos, ou magia. É apenas uma boa mente apronfundada no abismo de pertencer. Seguindo a história, adiante na história da humanidade, veremos três importantes Zoroastras que foram o marco do nascimento de Jesus.

Seus nomes eram Baltazar, Melquior e Gaspar. Mais conhecidos como os três reis magos. Vivos em uma época retratada pelo esvaziamento dos deuses e o empobrecimento dos homens. Os homens açoitavam-se à miséria de si próprios. Em privilégio à vontade do controle dos corpos e das massas, o controle de si mesmos e de sua vontade era cada vez mais obscuro.

Baltazar, Melquior e Gaspar eram sábios de bastante prestigio e poder. Seres abstratos com ferramentas reais. Entendiam tanto de sua espiritualidade pertencente como das maquinações da sociedade. De boa vontade os três elaboraram um plano para libertar o povo de sua angústia e guiá-lo para a felicidade.

Eles iriam atrás de um salvador, um messias que pudesse guiar o povo à libertação de sua desgraça. Este messias deveria nascer com as mesmas condições de pobreza do povo e ter a coragem de exceder-se às suas misérias. Assim partiram os três Zoroastras, atrás do rastro da estrela em direção a Belém.

Em Belém todos notaram a presença dos Três. Suas roupas nobres, suas posturas eretas, suas faces bem cuidadas eram o oposto de todos os pobres da pequena vila. Aquele povo carecia de entusiasmo, seus olhos eram cansados, suas vestimentas sujas e seu caminhar pesado. Seguir aqueles homens santos era o mais costumeiro que poderiam fazer aqueles vileiros de vida pacata.

E como eles ficaram surpresos ao verem os três reis pararem por uma moça imunda no bairro mais imundo e prenhe de barriga.

- De quem é este filho? Os três perguntaram.

- Eu não sei. Respondeu ela de olhar baixo.

De fato, esta era Maria, como tantas outras Marias de Belém, dava-se a tantos homens que era incapaz de saber qual deles seria o pai da criança. Puta! Vagabunda! Começaram a gritar os vileiros em volta de Maria, mas logo foram impedidos pelos três que se pronunciaram:

- Deveras este filho não é filho de nenhum homem, pois este filho não tem pai senão o pai de todos, deus. Assim vos dizeis os reis sacerdotes Baltazar, Melquior e Gaspar.

Ah! Mas é claro. – esbraveja o Verme. O que Maria, desgraçada como vivia, iria acreditar: ter nela o filho de deus, reforçada pelo nome e honra de três homens poderosos ou ter nela um filho da puta? E assim também aceitaram todos os vileiros, com esperança de ter ali a salvação de sua miséria. Jesus nasceu e viveu pobre, mas pelo reforço da visão dos reis magos, construiu uma sólida perspectiva anímica pelo respeito e apreço dos companheiros de vila.

Aos seus doze anos, Baltazar, Melquior e Gaspar levaram o menino Jesus para apronfundar sua missão. Ensinaram o menino em muitos conhecimentos gerais e também o guiaram ao encontro com sua espiritualidade pertencente. Aos trinta, retorna e assim foi Jesus. Um homem, como Zoroastro. Parte do mundo e símile do imperecível.

Suas operações milagrosas foram obra de seus conhecimentos e de sua boa mente. Sua boa mente foi que tocou os corações dos menos necessitados em compartilhar com os mais necessitados, e isto não fora um simples milagre de multiplicação. Foi de seus bons conhecimentos que ele pode curar os enfermos e não de poderes divinos. Sua vestimenta mística de milagres parte do delírio aos mortos imortais. Não há poder mais divino do que isto, literalmente.

Entretanto a vontade do homem é transformar tudo em espetáculo. Parte da incompreensão ao seu próprio mistério de pertencimento. Jesus foi um grande homem. E o que este homem representou teve a ver com sua mensagem de profundidade e beleza. Sentimento este que tem de ser buscado individualmente pelo enfrentamento da miséria em si. O que não caberá em norma religiosamente cumprida.

Mas os homens temem a ressuscitar os deuses, pois assim o fazendo sentem-se seguros em não ter de temer seus próprios abismos. E como fizemos com Jesus Cristo. E como fizemos com Zoroastro. Nós os vermes continuaremos a trazê-los de volta a linha pertencente da criação.

E continuaremos devorando.

21 de dez de 2009

A dobra da serpente

Os vermes de Marlox:

Não é da maçã que nasce a cobra, no entanto, pode ser da vontade a fonte de expansão para um tempo sem limite. Não sabemos nem quando, nem onde, mas o dia chegará para marcar a mudança que ainda não tem nome. Essa vontade não é simplesmente sexual ou virtual, mas natural.

Nesses encontros e desencontros a vida da as caras para um possível. Os entrelaces fustigados de energia não são explicáveis, mas afrontam moralismos, ditos pecaminosos e dogmáticos. O acontecimento como fonte, onde nasce e brota a esperança de ir além do conhecido.

No tempo desfragmentado não será necessário explicações ardilosas, nem mesmo articulações tempestuosas, pois as pessoas se entenderão pelo olhar e não mais pelas palavras. A violência não percorrerá as veias dos sentimentos. A liberdade não será fruto de uma vitória, mas de uma convivência fraternal.

Os relacionamentos amorosos não serão símbolos de conquistas, ou até mesmo de competência, mas de verdadeiros e sinceros sentimentos. Os significados se darão no calor da relação, ou seja, quando um não é sem o outro. Por ventura, as caricias formarão um único elo.

Nessa dobra de sentidos, constituída pela diversidade a maturidade aponta o caminho para a descoberta: a dobra valorada. Forjados na batalha, mas abastecidos da energia que não precisa de forma. O cansaço não nos vencerá, pois seremos fortes e guerreiros e na manhã do dia seguinte tomaremos café juntos.

Talvez na morte encontremos sentido para um sofrimento tão ardido, para um sentimento tão profundo, mas ao mesmo tempo enlouquecedor. De repente não saberemos jamais o porquê. A resposta não precisa ser dita, nem precisa ter um significado, pois no fundo, lá no fundo a pessoa sente o que é e o que não é.

É difícil enfrentar os desafios que corrompem nosso estado conformado. Não queremos pregar palavras, simplesmente discursos sem sentido, nossas palavras não devem ser apenas lidas ou proferidas, mas sentidas. Você faz parte desse acontecimento, deixe-se acontecer.

Abraços do irmão;
Pastor Frigido do Escudo Reverberante.

17 de dez de 2009

Talvez no tempo da delicadeza...

Os vermes de Manuela:

Acordei sem despertar naquele dia. Todas as pulsões chacinavam-se, esgotadas. Meus pensamentos espalhados por todos os cantos, como cigarras performáticas de um verão glacial. A princípio pétalas, mas ali o caule inóspito revestido de um silêncio mortal.

Quando caminho por entre as sombras dos teus aforismos, vejo que são tão ou mais desordenados do que os meus. Não fazes idéia. Reprimiria os anseios submetidos à ordem de infração, sob teu magnetismo indesviável. Até mesmo me soltaria sem bússola caso fosse, mesmo que sem pouso. Ainda que sem repouso. Faria.

Entendo os receios, mas quanto à confiança devo alertar que sou um contra-senso aos que duvidam. Aos que não crêem sou mesmo um paradoxo, um demônio de silfos vestindo asas barrocas. Para os que não se arriscam na exuberância da soltura, aceito que me culpem. Que assim seja e me poupem de seus desgostos.

Nós somos d’outra natureza. Teu espírito também foi tecido em lugar edênico e estamos atrelados pelo mesmo fio. As mesmas dores, a mesma angústia, que já cristalizam pelas frestas de virtudes. Os subsídios já estão todos forjados.

Quanto às pedras atiradas, não procuro lapsos de bondade em olhares alheios, por onde possa encontrar ciscos de reconhecimento vulgar. Nem mesmo desejo partilhar parte da culpa através dos julgamentos de outrem. Faço por inteiro e que a conseqüência seja cabalmente minha. Hei de seguir da mesma forma, sem margem, sem método, com amor irrestrito.

Manicômios são territórios em que espíritos ordinários de olhos vazios depositam almas inquietas como as nossas. Depois que morrermos, viraremos bons poetas. Pobres, mal sabem de onde viemos, por onde andamos. Fracos, desconhecem a guerra e a honra. Ignorantes dos ventos que nos fazem içar as velas, bebendo poesia no remanso das águas. Que assim seja a sentença e custo. Cada qual sabe da própria renúncia, mesmo que seja por inabilidade.

Ainda tenho erros por cometer, e não há como ser d’outro modo. Assino cada um com nome, sangue e digital. E após toda essa deselegância virá nosso tempo, onde te alcançarei subitamente, irreversivelmente. Quiçá na face imprevista da poesia que corre a galope, abruptamente carregada pelo vento. Sem mágoa, sem volta. Por inteiro.

30 de nov de 2009

O pau da serpente desdenha dos homens cansados.

A nossa religião não tem tempo. Não há vidas passadas e nem póstumas. De fato, só há vida. Gostamos de ser circunscritos à nossa consciência egoíca. Não há o sagrado e nem o leviano. O risco é nossa única verdade da vida. Só queremos saber o que pode ser feito e se tivessemos um deus, este seria o acidente.

A nossa religião é a preta.

A morte é um grilhão para o pequeno homem, mas é a grande aliada da preta. Nossa atuação é nos limites do desejo, portanto em nós não nos cabe o moralismo ou o tabu. Não confunda com o puro hedonismo pois a nossa proposta é mesmo de morte. É claro que partimos deste princípio para fazer valer o coração ainda quente no peito. E nós queremos saber o que mais pode ser feito.

Em nossa religião não existem líderes. Todos nós somos o máximo que nós podemos, mas não somos criadores e criaturas, nem servos e senhores. Somos o que somos e somos o que for de mais potente. Me escuta, pois eu sou teu General Feiticeiro da Foice do Juízo, e assumo o papél do pastor. Mas não somos uma pastoral, nós só queremos fazer o que pode ser feito.

Todos os que não fazem parte da preta, são cinzas. Cinzas deglutidas de sua neutralidade, cinzas como o pó de uma estrela. Nós da preta seremos pó, mas no momento só queremos saber de fazer brilhar nossa estrela. Os cinzas não tem nome e nem força, vão nascer, casar, comprar e seu momento de glória será mesmo a desejantemente indesejada morte de uma existência com sentido. O nosso tempo é o agora, o nosso tempo é também nosso lugar.

Não nos procure esperando conforto para a existência, pois ela é tudo o que há. Nada haverá após tua consciência egoíca. Nada também receberá da tua história em vida, ninguém lembrará teu nome, mesmo o lembrando. Você estará morto. Estaremos todos mortos, quando morrermos. Se tivéssemos que cultuar, nosso culto seria este. Pois nós queremos o que pode ser feito. E agora!

Atenciosamente;
Capa, Farda e Tarja.

5 de out de 2009

Meninos, Homens e Anjos. (carta para um amigo)

Então eu os convido para celebrar a chama infinita de nossos instantes. Aproveitem! Este tempo não será de novo. E nem eu serei de novo, portanto, não procurem por mim para não perderem-se em olhos vazios. Que deixem na porta de entrada os interesses e que não tentem fazer envergonhar o outro. Não serão de antemão bem-vindos, posto que é encontro. Então que se façam apenas vindos, para que possamos nos conhecer.

Esta noite vamos atrás da capa da poesia. Quem tenta a poesia, deve estar no intento de encontrar alguma luz nestes encontros cada vez mais sombrios. Tentando, poeta louco. Como quem já não quis, fomos. E a praxe atirou palavras vazias ao ar. Um missil teleguiado, em direção ao delírio de destino, mas o trajeto morreu no tempo. Ah meu amigo. O que você fez? Elas são de se esperar.

Agora é você que procurou por ela e claro, ela está a tua espera. É claro rapaz! preste atenção! Porque te comparar por baixo! como não seria assim? A miséria dos meninos e menininhas não pede perdão à noite. Sei bem que seus dezesseis anos tanto fazem, mas ela beijou aquele, como tanto fez. Ela o provocou com lábios de outro homem, e tu o beijaste, sentiste o gosto da saliva dele, e ainda sentiste o gosto do desespero de uma criança.

Que a foice justa rasgue as gargantas dos desesperados, dos medianos, dos falsos, dos servos...

Salve Jorge!

É só a ele que devo fidelidade,
meu amigo.

21 de set de 2009

Um lamento de intimidade


Se há lugar, há o outro. por mim eu estaria contornando estrelas a esta hora. Soprando dilúvios e vendo corpos afogando. Quem precisa de face? Mas não, mais uma vez me vêm o amor. Mas o que tu ama nos outros? - pergunta o Nietzche. Espera, espera, espera, espera. É o amor passando. Mas nossas esperanças amam em fragmento.

E lá vêm a turma dos pretensos iluminados! E vão me dizer que amor é desapego, é livre. É vegetariano? Tua fala não escapa de uma captura libidinal para teu sentido. Ah garoto, quero ver na presa de uma leoa barganhar tua crença. Agora pare com tanta sedução e olhe nos olhos do bezerro desgarrado. São negros ingênuos iguais aos teus, agora os arranque com os dentes. Obrigado irmãozinho. Sim eu te perdoo.

Perdão é devolver ao outro o que é dele. Circunscritos no tempo e no espaço, embora não extraídos dele, assim são os outros. Então criança esperta, não venha dizer que somos a mesma bola de carne na grande salada da terra. A noite sabe bem os tropeços sobre as sombras da intimidade, e que ela nos perdoe o desencontro do espírito em corpos entrelaçados sobre seu nome.

E agora Mirdad? Eu amei uma mulher. Sim, eu escolhi a folha; aquela única e linda folha. É claro que eu amo a árvore, a raiz e o solo. Então porque eu escolhi a folha? Eu sacrifico em prol da inteligência mas é preciso inteligência em prol do sacrificio. Escolhi porque eu quis. Sei bem que aquela linda folinha que escolhi, faz tremer toda raiz.

E que me torçam o nariz os fetichistas a tentar roubar o meu olhar. Que procurem seus olhos perdidos na cova do corvo e que enxerguem em cada folha a beleza do todo. Mas mesmo as folhas não se enxergam. Estas folhas desconfiam entre si, e do tronco, e do solo, e da fruta. Não conseguem ver a intimidade de ligação. Teimam que são árvores inteiras. E assim sois.

Mas confiar no outro é a afirmação de si mesmo. A abstração de amor de longe me parece o amor mais lindo em sintonia do imperecível. Mas pra viver intimidade nos homens, há de esperar. A intimidade e o prazer desconfortam tanto o outro, que o prazer confunde-se com a dor de perder-se inteiro. E aí vendem e compram suas relações os homens, inventando o descartável para salvaguarda do medo.

Ah como eu queria poder viver intensamente a intimidade universal. Mas não é desta feita a cultura. E nem de seus pensamentos incestuosos e nem das casas de swing poderá ser retratada a intimidade em sua forma glória. Portanto eu escolhi assim. Formatei esta folha para mim. E que de meu sopro-fogo eu possa vê-la verdejar de vida e nela poder oxigenar minha alma, em seu retorno.

9 de set de 2009

Diabo, o cozinheiro.

Quer escutar uma boa história?

- Disse o verme, enquanto mastigava pedaços de peles e fezes.

A história é sobre a visita à cozinha do diabo, a mais recente história da humanidade. Venha comigo, eu te ingresso à corda da época. Você se lembra do primeiro assassinato? Pela tribo da serpente a lança do ciúmes pela primeira vez matava com intenção. Não foi uma morte comum, exceto, é claro, para nós os vermes. Que o devoramos como todos os outros.

Mas aqueles macacos nunca mais foram os mesmos. Suas faces desamparadas, de olhar ao vazio, sem saber o que fazer ou o que fizeram, era o reflexo do que seria o nascimento da humanidade. Estes sentimentos impuros de nada tinham a ver com a linha direta da conexão. É claro que eles seriam expulsos. E assim foram batizados: estes mutantes cuspidos, agora carregavam o fardo do vazio. Seu gosto era delicioso.

Nós, os vermes, continuamos a preenchê-los mastigando suas carcaças. Mas eram mesmo estranhos estes novos macacos, e mesmo em nosso esforço de devorá-los de volta à união, eles temiam e orgulhavam-se em serem divididos. Mas até então, estes agora homens eram covardes demais para assumir seu orgulho. Fisicamente eram um dos menos providos da criação, seus corpos e espíritos fracos, morriam com o bater de um vento contrário. Eles nunca entenderam o vento, e sempre o tomaram como contrário.

Eram mesmo deliciosamente despreziveis estes homens. Todas as criaturas empinavam o nariz para com eles. Os animais mais nobres renegavam suas carnes, os mais gentis, os carregavam por pena. Desesperados, agarraram-se à uníca lembrança que tinham de sentido. Mas estes homens pouco lembravam da união e por isto como tentativa desesperada de aplacar sua angústia dividiram o mundo em busca do intento de Deus.

Queriam voltar ao útero de si mesmos. Inventaram histórias e ícones para suas crias. E assim também, criaram os preconceitos, separando em definitivo a razão do verbo. Seu ópio era a esperança. Assumiram-se como criaturas impotentes de um projeto maior, onde deviam açoitar-se à vida, a fim de receber uma esperada redenção fatal. Seus bitolados olhos eram incapazes de perceber que nós, os vermes, sempre lhes demos esta redenção.

Mas foi aí que dividiu-se também Lúcifer. O diabo, como foi chamado, sentia grande compaixão para com os homens, e não suportou vê-los tão afastados da linha tênue da potência. Viu no desamparo e medo dos homens, a oportunidade de lhes trazer à luz. Alguns disseram que o diabo havia enlouquecido, outros viam em sua loucura, a lógica misericordiosa do sacrifício. O fato é que o diabo tornou-se o patrono do abismo e com convicção rasgou-se da conexão, para abraçar a humanidade.

E foram muitos os esforços do diabo em amparar o homem. O satanás é patrono da cidade. E ensinou ao homem o batismo da etiqueta. Impulsionou o homem a ser jogado nas profundezas de seu abismo, a ousar e a apoderar-se de suas trevas. Era o caminho de luz traçado. Mas o homem, medroso e desconfiado, renegou o abraço de Lúcifer e autuou seu caminho com mais preconceitos. Vendiam suas ordens morais a quem ousasse, e ao diabo coube o papel de cozinheiro. No abismo permaneceu alimentando os desejos do homem.

A humanidade voltou-se para a manutenção desta postura e da acomodação dos seus corpos na terra. Pensavam que a disseminação de sua prole virótica lhes daria, à força, o direito de pertencer. Mas a própria busca pela sua inventada pureza não era nada pois fragmento. Seres delirantes como são, precisavam reconhecer-se como coisa. E pensavam que, enquanto estivessem devorando, o vazio existencial de seus corpos lhes pareceria silenciado.

Mas sua fome desregulou-se. Nós entendemos de fome, aquilo nunca foi fome. Uma deglutição nervosa que voltou-se para o externo de si. A ordem era de progresso, tentavam aplacar o ronco abismal pela conquista. Mas o que eles silenciaram, no entanto, foi o crescimento deste vazio afastando ainda mais a real conquista de seu protagonismo pertencente. Engoliram tanto veneno como forma de anestésico, que acabaram não percebendo a corrosão. Nós entendemos de corrosão e estes humanos estavam perdendo o seu gosto.

E olha a humanidade; masturbando-se às expectativas. Desperdiçando o amanhecer a cada sorriso condescendente. A cada palavra de cura colhendo um pouco de morte. Uma face incestuosa a cada gesto de condolência. Quão complexo se tornaram os homens, e quão alienados. Inventaram tronos de exílio e palácios. O ódio que tinham de toda criação pertencente aumentava à medida que sua existência perdia sentido. E devoravam e devoravam. Desta vez não haveria barganha quanto a destruição. E o vazio aumentava.

O Diabo continuou a fazer seu caminho; encorajando o homem na experimentação de seus desejos maís íntimos e ao embate com sua sombra. E continuou a ser renegado; os homens lhe fechavam os olhos e torciam o nariz à sua presença. No entanto, deliciavam-se em segredo com suas manhas. Você sabe, o diabo, elegante como é, não cobraria devoção nem mesmo reconhecimento dos homens por isto e, pacientemente, torceu pelo sucesso deles esperando o dia que eles se sentissem à vontade.

Eu te disse antes que a criação da humanidade veio pela sua expulsão da linha do pertencimento, não disse? Mas é claro, à boca do verme, estes homens são pouco diferentes de macacos. Mas alguns destes homens, realmente foram diferentes de qualquer outra espécie. E é destes, que eu relataria o nascimento do ser homem. Vieram de épocas diferentes. Eram homens como os homens, mas alguma coisa ressoava no seu sacrifício.

A humanidade estava tão prenhe de orgulho, que se tornara a espécie mais solitária de toda existência. Não conseguiam dialogar que não fosse pela norma. Mas estes homens queriam saber do que andavam se alimentado na cozinha do diabo e rasgaram a linha tênue de sua época. Desvendaram o demasiado humano em si, o feio e o ruim. E assim tornaram-se homens e afogaram em si um oceano.

Estes desbravadores do imperecível estavam fartos com a humanidade. E furiosamente irritados, abriram as portas da cozinha. Disseram com todas as palavras que embaixo estava a fonte, e que deixassem aos escuros dizerem inferno. Este convite reverberou ao longo do tempo, foi silenciado e assassinado por muitas vezes mas recentemente, acuados sob a casa dos espelhos, a humanidade enxergou sua contradição. O espelho tornou-se vazio e seu simulacro insustentável. Os homens racharam-se novamente em desamparo.

A imagem abismal é algo indescritível. Lá no topo os homens ficaram maravilhados com sua vista e temerários com sua queda. Desesperados de ter tido sua existência servil apenas de alimento para nós, os vermes, os homens jogaram-se no abismo. Mas estes jogaram-se por medo, diferente daqueles que antes o fizeram por coragem. Nós passeamos pelo abismo. O abismo engole os homens covardes na escuridão.

Este é o atual estado da humanidade. A vagina fria de suas mães esfregada às faces. Os demônios, anjos, deuses e mesmo o diabo, por eles criados estão perdidos. Entregues às sombras do palácio do exílio a vergonha e o medo são pervertidos em gozo negro. Apavorados, muitos procuram reforçar a obediência, enquanto outros enrolam-se na lama mais profunda do lodo abismal.

- Pausa o verme e ri.

Quer saber uma utopia? Agora estes homens carregam o odor constante da morte em seus coitos e nós nos tornamos o mais próximo retrato de sua procura a Deus.

- E arrastando-se sinuosamente foi o verme; procurar um coração a esbulhar de sobremesa.

21 de ago de 2009

Entre crianças e cartomantes

Falaria eu sobre encontros espontâneos
Entre crianças e cartomantes
Para abrir teus olhos?
Falaria sobre a intimidade à sombra
Da evolução natural
Para abrir teus olhos?
Falaria sobre orgias em união de amor
Para te abrir?
Sobre o que eu falaria para abrir teus olhos?
E o verme passaria por mim...

- Não diga nada, apenas os devore.



17 de ago de 2009

O rato e o justo.

Estou farto destes meninos e menininhas da noite. Eu estive lá. Entre-fui ratos e víboras peçonhentas. Entre-sou rato. Mas entre-sou Serpente. Os vermes em minha mente ardem corroendo saídas. E há de se convocar à guerra. Destas almas incertas estamos fartos. Destas menininhas de pênis, em alvo de gozo à própria face. Estes meninos de vaidade sem origem. De desejo vazio. Orfãos de poder. Estamos em guerra.

Tinha de ser assim. Somos de tribos diferentes. No teu olhar encontro súplicio e medo. No meu olhar, tu encontra o vazio. Não há como tu reconhecer o que há em mim. Mas teu desamparo é típico do orfão. E se te digo que somos de tribos diferentes, é só porque andas em bando, em tentativa desesperada de calar a tua expulsão. Mas eu te pergunto, um bando de exilados que andam juntos, formam uma tribo? Tu estás mesmo sozinho.

Mas os meninos e as meninas enganam-se o tempo todo.

O perverso e o justo se misturam no jogo do louco. O justo rato veste toca, mas não está na tua. O navio do tempo se move a cada quadro. O farol a cada piscar te faz referência. Repara que o caminho da luz do Sol, n'água, procura por ti. E morrerão os meninos pela foice justa de São Jorge. Estás condenando-te assim. E um sorriso leve desponta em minha face de ver-te de coração tão pesado como pluma. Achas mesmo que terás misericórdia divina? Toma-te coragem e assuma o desafio! E que comece dizendo: por favor.