18 de jan de 2011

Ladainha

Eu imagino a cena: uma pessoa a quem não sei mais o nome abre o sorriso ao me ver, ela realmente está contente e aparentemente lembra de todos os nossos encontros. Eu sorrio de volta, por simpatia é claro. Tiro do bolso as respostas ensaiadas à cortesia, sei bem o que virá.

"Há quanto tempo? Como você está?" É o que todos dizem mas não, meus amigos, eu não estou bem. Eu passei bastante tempo sofrendo enquanto ouvia os ruídos. Vocês me dão trabalho! Tem sempre muitas coisas em ti, como a sarna epidêmica no gado. Não somos livres juntos.

Eu realmente não estou bem. E se não lembro teu nome é porque me passou em branco tua presença, ao mesmo tempo que o registro da minha história em tua boca me coloca como momento na tua contagem regressiva da vida. E tudo em ti é regressão, deve ser por isto que tu distancia o tempo da tua história e por isto que te interessa no estar.

Mas eu não me importo em te fazer entender, pois não estou bem. Não somos amigos. Não acredito nessa enumeração enfadonha, nesta oração à virgem para interceder por ti, neste teu profile esclarecedor. Eu aprendi uma coisa, a razão tem sempre razão. E da tua boca não sai nada que não seja a verdade.

Então que me chamem de louco quando não lhes venço por razão e acredito sozinho na tua miséria e em minha inocência. Acredito em mim pois sofri muito para isso. Te falo com a voz da dor; e não usei de dor para fazer razão. Então vai pedir o caralho para a virgem seu bosta. Porque só mesmo um bom palavrão, pra maldizer qualquer razão e animar o meu penar dia.

7 de jan de 2011

Contos do tredo

Conto 1:

Os amassos tediosos no banco de trás do carro revelam uma paisagem nula. Sobre aquela lua e as estrelas se esconde um universo em desamparo. O pau levanta e desce, assim como o violino a ser regido pelo maestro tensor entre fetiche e ansiedade. Mas ali não há sinfonia.

Ali todo o som é mesmo monótono.


Conto 2:

Naquele pico há duas mulheres e a mesma, uma pequena e uma velha. A pequena é dedicada e serve ao caso pensado. A velha quer ser também o tredo. As costas crustas pesam o exato formato nos lençois e ela volta a dormir (como o morto a encaixar-se na fita pericial). Pensa antes em paz do que em sexo. Quer flores no enterro, mas não as espera em vida. Alimenta sapos na barriga. Transforma culpa em juízo, não quer amor mas quer abrigo. Sente-se melhor com espelhos novos, pois lhe mostram feia os antigos.


Conto 3:

Todas as noites ele sonha. É criança, tem medo, está quase sempre pelado e a voz ecoa. Ao despertar não os lembra e logo trata de recompor o corpo. Aquela linha entre ele e o outro lado é transformada em face e ele gosta disto. Entoa para não lembrar o menino do sonho que não oferece sentido e nem sorriso - pois lá só há abismo. Mas ele sai a ler as respostas e recados de computador em sua pagina oficial. Sente-se atraente por vez e alimenta o sorriso de seu ópio matinal.

Aquele menino andava nu no sonho
mas este está sempre vestido